um pequeno livro sobre distância, código e sentimento
Entre o código
Eu sempre gostei das coisas que fazem sentido.
Do código que compila,
da pergunta que encontra resposta,
do problema que, cedo ou tarde,
aceita uma solução.
Talvez por isso você me intrigue tanto.
Porque eu ainda não encontrei você.
Não de verdade.
Ainda não sei como é o seu abraço,
não conheço o som da sua risada
sem um celular entre nós,
nem sei se vou conseguir sustentar seu olhar
quando finalmente estiver diante de você.
E mesmo assim,
de algum jeito estranho,
você já está aqui.
No meio do meu trabalho,
em alguma música que toca por acaso,
naquela vontade involuntária de olhar o celular.
Nos minutos antes de dormir
e, perigosamente,
nos primeiros pensamentos quando acordo.
É engraçado.
Passei tanto tempo acreditando
que algumas partes de mim tinham sido desinstaladas,
que certos sentimentos eram versões antigas
de quem eu fui um dia.
Aí apareceu você.
Sem pedir permissão de administrador,
sem manual,
sem documentação
e definitivamente sem respeitar
nenhuma regra de segurança.
E começou a acessar lugares
que eu jurava estarem protegidos.
Talvez Clarice tivesse razão em procurar
tantas respostas dentro de si.
Porque desde que você apareceu,
tenho descoberto coisas minhas
enquanto tento entender o que existe em você
que me prende tanto.
E olha que ironia:
eu, que vivo tentando prever erros,
testar possibilidades
e imaginar todos os cenários
antes de executar qualquer coisa,
não faço ideia de onde isso vai dar.
Pela primeira vez,
não quero fazer debug
do que estou sentindo.
Quero simplesmente
deixar rodar.
Porque existe uma distância enorme entre nós,
uma estrada que ainda não percorri
e um primeiro encontro
que ainda pertence ao futuro.
Mas existe também essa coisa sem nome
que atravessou quilômetros
como se distância fosse apenas
mais uma variável irrelevante.
Não sei o que vai acontecer
quando finalmente estivermos frente a frente.
Talvez eu fique sem palavras.
O que, considerando o tanto que falo com você,
seria uma bela falha de sistema.
Talvez eu sorria feito bobo.
Talvez naquele instante eu entenda
por que, entre bilhões de pessoas,
algoritmos,
coincidências
e caminhos possíveis,
a vida resolveu colocar justamente você
na minha frente.
Só sei que, antes mesmo de conhecer
o tamanho do seu abraço,
você já ocupa um espaço enorme
nos meus pensamentos.
E talvez essa seja a parte mais bonita
e mais assustadora de tudo:
eu ainda nem toquei você,
mas, de algum jeito,
você já conseguiu
tocar em mim.
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